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O escuro, as luzes, o Natal

Mais um ano, mais um Natal.

Se fizéssemos um brainstorming sobre o que é Natal, surgiriam respostas como: “alegria”, “nascimento de Jesus”, “paz”, “harmonia”, “presentes”, “família”, “acolhimento”, “comida”, etc.

Por vezes, sinto-me cansado dos Natais de hoje. Imaginem o que é ter uma dor de cabeça terrível e estar numa sala cheia de luzes, cores e barulhos.

Do Natal gosto mesmo é da noite e dia de Natal. É pena que isto represente apenas 3,3% (24 horas a dividir por 30 dias) de todo o “período de Natal” que teima em começar cada vez mais cedo.

Gosto de conhecer as tradições de sentir-lhes o pulso para as poder viver mais atentamente. O nascimento de Jesus tanto pode ter acontecido numa noite de Inverno como de Verão. Então porque raio celebramos o Natal ao frio, com chuva?

Não me sinto capaz de evocar todos os elementos que levaram a que se celebrasse esta festa na noite de 24 de Dezembro.

Como sabem, o Solstício de Inverno, que não tem data fixa (este ano é a 21 de Dezembro), é o momento do ano, no hemisfério norte, em que a noite é mais longa. A partir desse momento os dias começam a ser maiores. As tradições hindu e persa já celebravam este facto e o império romano celebrava-o na forma de “Sol Invictus”.

Os cristãos reconhecem em Cristo o Senhor da História e, portanto, tudo aconteceu e acontecerá em referência a Jesus. Naturalmente cristianizaram-se a maior parte das tradições pagãs. O simbolismo do Solstício é muito forte e os cristãos associaram-no ao nascimento do Deus feito menino. A luz sobrepõe-se às trevas.

Ora, se acenderem uma vela no meio de uma sala muito iluminada vão sentir a diferença? E quando acendem uma vela numa sala escura? Se esperarmos um pouco vamos conseguir ver o que quisermos.

É por isso que gosto das luzes de Natal, no Natal. Ajudam-me a sentir que mesmo nos momentos de maior escuridão Deus se torna presente e que os outros o anunciam (os amigos, a família, a música).

Resumindo e concluindo, descobri que gosto do Natal, mas no Natal. E não antes. Os Coldplay ajudaram-me “a ver a Luz” com a sua nova música “Christmas Lights”.

Os barulhos

Cheguei ao nosso local das refeições e só lá estava o Br. Michael . Um dos carmelitas seniores aqui no convento. As conversas são sempre engraçadas e ele está sempre alegre. Diz ele que não tem razões para estar triste. Diz que não se lembra de nenhuma.

Este fim-de-semana houve, aqui no espaço do convento, uma “Christmas Fayre” é uma feira de artesanato, doçaria e afins. Depois da oração do meio-dia, convidámos o Br. Michael para vir connosco ver a feira. Ele veio e lá foram 3 frades castanhos acolher alguns visitantes. Encontros, música, conversas, risos, barulhos.

Voltando à sala das refeições. O Br. Michael começou a falar dos tempos em que viveu em Nova Iorque. Das “avenues” que são largas e com muito trânsito cruzadas pelas “streets”. E eu perguntei se fazia muito barulho. E ele responde: “viviamos com o barulho, para nós ele não existia”.

Gosto destas conversas, simples, porque me fazem pensar.

Quantas vezes isto não nos acontece? Quantas vezes “esquecemos” coisas que passam a ser normais? Pobreza, maus tratos, prostituição, guerras, mortes na estrada, corrupção, falta de amor, falta de esperança, falta de vida.

“Tempus Autumnus”, o tempo do ocaso

Olá, como estás? Estou bem, obrigado, e tu? Está tudo bem. (silêncio). Epah está cá um temporal… Realmente este tempo anda avariado. Pois é, faz cá um fresquinho!

Levante o dedo ou faça um comentário aquele que nunca teve esta conversa (ou similar).

. . . (isto representa a espera pela resposta)

Bem me parecia. O homem (descobri que não é típico do tuga) quando não tem nada para dizer fala do tempo. Normalmente resume-se a uma constatação de facto: está frio, está calor, está a chover.

Mas será que paramos para ver as mudanças no dia-a-dia? É óbvio que notamos que as folhas caem. E mais do que isso?

Hoje sugiro não uma, não duas mas três músicas sobre o Outono. Os artistas nas diferentes dimensões têm a capacidade de olhar para coisas que o comum dos mortais nem se lembra. Sugiro, então, Outono de Vivaldi (das Quatro Estações), Balada de Outono de Zeca Afonso e Ruas de Outono de Ana Carolina. Dediquem um tempo a pensar no Outono.

Na divisão das estações o Outono é a primeira fase do período frio. Em latim chamava-se Tempus Autumnus, literalmente, o tempo do ocaso.

Um carmelita da minha comunidade sugeriu que eu rezasse as estações do ano. Pensei: “Coitadinho, deve ter batido com a cabeça nalgum lado para sugerir isto…”

No entanto, aceitei o desafio e comecei a pensar no Outono. A natureza vai morrendo aos poucos no Outono. Não é algo brusco; é um processo longo. Se apreciado com calma chega a ser bonito.

Esta árvore está na entrada do convento onde vivo. Todos os dias vai perdendo as suas folhas, mas o espectáculo que proporciona é imperdível. Passo por lá todos os dias!

Outono é morte, é partida, é deixar ir, é ficar, é preparar, é …

Rezar as estações é tornar-me parte do mundo que me rodeia. É interiorizar que a vida é Primavera, é Verão, é Outono, é Inverno. Com ou sem alterações climáticas!

Dia de Todos os Santos, Dia dos Santos sem nome

Bom dia, amigos!

Lembro-me de ser miúdo e de ir visitar o monumento dos combatentes do ultramar. Lembro-me, também, de ir visitar o túmulo do soldado desconhecido. O passado de tantas pessoas que não figuram nos manuais de história, nem nas prateleiras de uma imensa biblioteca, evoca em mim a grandiosidade deste mundo.

Hoje, dia de Todos os Santos, li este conto:

A santa sem nome

Era uma vez uma pequena que servia numa quinta – já não se sabe onde… Esta jovem parecia de tal maneira insignificante que só a chamavam por “Ei, tu aí”, “Psst, pequena” ou “Ó miúda”. O seu nome havia sido completamente esquecido e ela própria também já não o recordava.

Depois da sua morte, quando se encontrou no paraíso, qual não foi a surpresa ao ver que a conduziam diante dos maiores santos do céu! Sim, porque apesar de uma vida discreta e pouco notável, a jovem tinha chegado, sem se dar conta – e talvez por causa disso – ao maior estado de santidade.

E se, cúmulo da inocência, ela estava surpreendida e perturbada com tantas atenções, os outros santos estavam muito embaraçados. Todos sabiam que, por não ter nome próprio, a nova santa nunca poderia receber orações particulares, pedidos que só a ela fossem dirigidos.

Desde logo os santos mais generosos propuseram-lhe partilhar os seus nomes, mas ela recusava educadamente, dizendo que até aí tinha vivido bem dessa maneira, e assim poderia continuar. Foi então que Deus se pronunciou:

– À nova santa sem nome irão todas as preces sem nome.

Depois desse dia é esta pequena, de quem nada se sabe, que recolhe no céu a maior parte das orações. Com efeito, é a ela que sobem todos os impulsos dos nossos corações cada vez que, mesmo sem termos consciência, somos atravessados por uma inclinação para o bem ou um desejo impreciso de tornar o mundo melhor.

Diz-se que cada sorriso, cada lágrima
Das nossas emoções mais puras
é no mesmo instante recolhida e abençoada pela santa sem nome.

 

Jean-Jacques Fdida
In Contes des sages juifs, chrétiens et musulmans, ed. Seuil
Trad. / adapt.: rm
© SNPC (trad.) | 31.10.10

in (http://www.snpcultura.org/paisagens_a_santa_sem_nome.html)

Jesus Cristo, segundo as Escrituras, falava com toda a gente e fazia sentar na sua mesa o pobre e o pecador. De onde nos vem, então, a ânsia de sermos importantes, reconhecidos, elogiados, admirados?

Neste último fim-de-semana, foi pedida colaboração dos noviços num santuário a 20 km daqui. É o santuário de S. Judas, em Faversham.

The Shrine of Saint Jude - Faversham

Segundo a tradição, Judas Tadeu é o santo das causas perdidas ou impossíveis. A este santuário chegam, todos os dias, os pedidos mais desesperados e também palavras de agradecimento.

Durante este fim-de-semana centenas de pessoas de muitas origens vão a Faversham. Muitos anónimos, com orações anónimas, com vidas anónimas. Tive oportunidade de atribuir o nome a algumas pessoas que nos iam contando o que se passava na sua vida. Percebo, agora, que o facto de serem anónimas pesa sobre nós e não sobre as pessoas. Se não queremos que as pessoas sejam anónimas temos de conhecê-las, conhecer o seu nome, a sua história. E talvez encontraremos santos que antes dizíamos não terem nome!

Desejo-vos uma óptima semana 😉

Um ano. Uma pedra. Uma vida?

Ora bolas. “Que raio anda ele a dizer? Passou-se! Deve ser dos ares ingleses”

Amici! Ainda não ensandeci, estou bem de saúde, de corpo e alma.

Num dos primeiros encontros que tive reflectimos sobre uma passagem do Primeiro Livro dos Reis (1 Rs 19,8-9): Elias caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até chegar ao Horeb, o monte de Deus. Depois de aí ter dormido Deus fala com Ele. Acham que ele disse coisas simpáticas tipo: “bem-vindo”, “Well done”, etc. ? Pois não é isso que aparece escrito. As primeiras palavras de Deus são: “Que fazes aqui, Elias?”

Ora bolas… Aparentemente Elias tinha sido chamado por Deus e agora Ele perguntava o que Elias estava a fazer ali???

Pois é assim o início da minha caminhada.

Conheço-me como uma pessoa que fez uma caminhada muito própria com vários e bons desvios, boas e más opções. Toda a minha vida me encaminhou para aqui. Quando penso nisto sinto vertigem. As nossas vidas são o resultado de muitas opções, de muitos encontros e desencontros!

Estou a viver num convento carmelita em Aylesford, Kent, Inglaterra. Assumi o compromisso de, durante um ano, discernir o que fazer daqui para a frente. É um ano intenso em que é pretendido que a pessoa descubra se esta vida é, ou não, aquela que mais a realiza, que mais a alegra, que mais a torna cristã.

Na peregrinação a Santiago de Compostela o P.e Nuno e o Tiago Alves, entre outros, faziam questão de colocar uma pedra nos marcos. No meu retiro de início de noviciado, o P.e Damian contou a história de uma senhora que levou, no seu Caminho de Santiago, um saco com pedras e que as ia colocando. Dizia ela que simbolizava as coisas que nós temos de deixar para trás.

Falo de pedras porque também eu tenho uma pedra comigo (estou a falar literalmente). É uma pedra pequena, com arestas, aspecto rude. Para que ela tivesse essa forma, que é apenas sua, milhares e milhares de anos tiveram de passar e sabe-se lá se nessa altura ela não estava em França? Assim é a nossa vida. Vou transportá-la comigo.

Um ano. Uma pedra. Uma vida?

PS1: Na foto envergo o hábito dos Carmelitas.

PS2: Sugiro dois links em que explicam melhor o que se passou há duas semanas atrás (em que recebi o hábito):  http://aylesfordpriory.blogspot.com/2010/10/clothing-of-novices.html

e

http://carmelite.org/index.php?nuc=news&item=313&func=view&id=40

 

As palavras e Santiago de Compostela

Já não escrevo há algum tempo. Este facto não se restringe ao blog mas também ao meu caderno pessoal. Cansam-me as palavras, parecem não dizer aquilo que sinto.

Esta semana fiz (fizemos) o Caminho Português de Santiago de Compostela. Foi uma experiência forte, marcante e altamente divertida e, ainda assim, continuei sem escrever.

No entanto, as palavras, ainda que limitadas, são a forma que utilizo para partilhar os meus últimos dias!

No domingo passado partimos de Barroselas (Viana do Castelo) rumo a Santiago de Compostela. Éramos um grupo variado, unidos pelo destino que estava a 170 km – Santiago! O sentimento de “ups, onde é que eu me fui meter????” pairava no ar. Comparavam-se os tamanhos e pesos das mochilas, começavam as primeiras apresentações. Depois da eucaristia, onde o P.e Nuno nos dirigiu umas palavras de alento, partimos rumo a Ponte de Lima. De Ponte de Lima fomos para Valença. De Valença para Redondela. De Redondela para Pontevedra. De Pontevedra para Padrón. De Padrón para Santiago de Compostela. Chegámos ontem (dia 3 de Setembro)!

Colocar em palavras a emoção, a dor, a ajuda, a diversão, as noites sem colchão, a noite ao relento, o riso, o choro, o abraço, é sempre pouco.

Talvez com o tempo as palavras possam dizer algo.

Obrigado: P.e Nuno (pelo esforço, paciência, animação, profundidade), Adão (pela energia dos seus 16 anos), Ana Catarina (pela minha alcunha: “Decathlon”), Carina (pela demonstração de grande esforço e pela música que nos animou quando precisávamos), Catarina (pelo abraço, pelo gesto no momento certo), Daniela (pela disponibilidade, energia, sorriso e olhar), Hugo (pelo desafio de te tratar das bolhas :D), João (pela reflexão oportuna e inoportuna – por causa do reflector que usava na mochila), Margarida (pelo sorriso e palavra), Nuno Ventura (pelas conversas, pela experiência), Paulo (pelas experiências de missão que lembram a grandeza deste mundo), Tiago (pela energia, animação inesgotável, sensatez nos momentos certos).

Ontologias e momentos

“Porquê o ser e não o nada”: este foi o tema de muitas aulas de ontologia. Não me perguntem o que é a ontologia, do que trata, etc. Digo-vos que, na última aula, a ontologia passou a fazer sentido.

Não foi pelo conteúdo dado mas pelo que, clandestinamente se passava. Consegui ter uma conversa (por escrito, versão papelinhos) com um colega sobre coisas muito mais importantes que as características do “esse ipsum subsistens”.

Começo a valorizar estes pequenos momentos. E ainda bem! 😀