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Os barulhos

Cheguei ao nosso local das refeições e só lá estava o Br. Michael . Um dos carmelitas seniores aqui no convento. As conversas são sempre engraçadas e ele está sempre alegre. Diz ele que não tem razões para estar triste. Diz que não se lembra de nenhuma.

Este fim-de-semana houve, aqui no espaço do convento, uma “Christmas Fayre” é uma feira de artesanato, doçaria e afins. Depois da oração do meio-dia, convidámos o Br. Michael para vir connosco ver a feira. Ele veio e lá foram 3 frades castanhos acolher alguns visitantes. Encontros, música, conversas, risos, barulhos.

Voltando à sala das refeições. O Br. Michael começou a falar dos tempos em que viveu em Nova Iorque. Das “avenues” que são largas e com muito trânsito cruzadas pelas “streets”. E eu perguntei se fazia muito barulho. E ele responde: “viviamos com o barulho, para nós ele não existia”.

Gosto destas conversas, simples, porque me fazem pensar.

Quantas vezes isto não nos acontece? Quantas vezes “esquecemos” coisas que passam a ser normais? Pobreza, maus tratos, prostituição, guerras, mortes na estrada, corrupção, falta de amor, falta de esperança, falta de vida.

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“Tempus Autumnus”, o tempo do ocaso

Olá, como estás? Estou bem, obrigado, e tu? Está tudo bem. (silêncio). Epah está cá um temporal… Realmente este tempo anda avariado. Pois é, faz cá um fresquinho!

Levante o dedo ou faça um comentário aquele que nunca teve esta conversa (ou similar).

. . . (isto representa a espera pela resposta)

Bem me parecia. O homem (descobri que não é típico do tuga) quando não tem nada para dizer fala do tempo. Normalmente resume-se a uma constatação de facto: está frio, está calor, está a chover.

Mas será que paramos para ver as mudanças no dia-a-dia? É óbvio que notamos que as folhas caem. E mais do que isso?

Hoje sugiro não uma, não duas mas três músicas sobre o Outono. Os artistas nas diferentes dimensões têm a capacidade de olhar para coisas que o comum dos mortais nem se lembra. Sugiro, então, Outono de Vivaldi (das Quatro Estações), Balada de Outono de Zeca Afonso e Ruas de Outono de Ana Carolina. Dediquem um tempo a pensar no Outono.

Na divisão das estações o Outono é a primeira fase do período frio. Em latim chamava-se Tempus Autumnus, literalmente, o tempo do ocaso.

Um carmelita da minha comunidade sugeriu que eu rezasse as estações do ano. Pensei: “Coitadinho, deve ter batido com a cabeça nalgum lado para sugerir isto…”

No entanto, aceitei o desafio e comecei a pensar no Outono. A natureza vai morrendo aos poucos no Outono. Não é algo brusco; é um processo longo. Se apreciado com calma chega a ser bonito.

Esta árvore está na entrada do convento onde vivo. Todos os dias vai perdendo as suas folhas, mas o espectáculo que proporciona é imperdível. Passo por lá todos os dias!

Outono é morte, é partida, é deixar ir, é ficar, é preparar, é …

Rezar as estações é tornar-me parte do mundo que me rodeia. É interiorizar que a vida é Primavera, é Verão, é Outono, é Inverno. Com ou sem alterações climáticas!

Dia de Todos os Santos, Dia dos Santos sem nome

Bom dia, amigos!

Lembro-me de ser miúdo e de ir visitar o monumento dos combatentes do ultramar. Lembro-me, também, de ir visitar o túmulo do soldado desconhecido. O passado de tantas pessoas que não figuram nos manuais de história, nem nas prateleiras de uma imensa biblioteca, evoca em mim a grandiosidade deste mundo.

Hoje, dia de Todos os Santos, li este conto:

A santa sem nome

Era uma vez uma pequena que servia numa quinta – já não se sabe onde… Esta jovem parecia de tal maneira insignificante que só a chamavam por “Ei, tu aí”, “Psst, pequena” ou “Ó miúda”. O seu nome havia sido completamente esquecido e ela própria também já não o recordava.

Depois da sua morte, quando se encontrou no paraíso, qual não foi a surpresa ao ver que a conduziam diante dos maiores santos do céu! Sim, porque apesar de uma vida discreta e pouco notável, a jovem tinha chegado, sem se dar conta – e talvez por causa disso – ao maior estado de santidade.

E se, cúmulo da inocência, ela estava surpreendida e perturbada com tantas atenções, os outros santos estavam muito embaraçados. Todos sabiam que, por não ter nome próprio, a nova santa nunca poderia receber orações particulares, pedidos que só a ela fossem dirigidos.

Desde logo os santos mais generosos propuseram-lhe partilhar os seus nomes, mas ela recusava educadamente, dizendo que até aí tinha vivido bem dessa maneira, e assim poderia continuar. Foi então que Deus se pronunciou:

– À nova santa sem nome irão todas as preces sem nome.

Depois desse dia é esta pequena, de quem nada se sabe, que recolhe no céu a maior parte das orações. Com efeito, é a ela que sobem todos os impulsos dos nossos corações cada vez que, mesmo sem termos consciência, somos atravessados por uma inclinação para o bem ou um desejo impreciso de tornar o mundo melhor.

Diz-se que cada sorriso, cada lágrima
Das nossas emoções mais puras
é no mesmo instante recolhida e abençoada pela santa sem nome.

 

Jean-Jacques Fdida
In Contes des sages juifs, chrétiens et musulmans, ed. Seuil
Trad. / adapt.: rm
© SNPC (trad.) | 31.10.10

in (http://www.snpcultura.org/paisagens_a_santa_sem_nome.html)

Jesus Cristo, segundo as Escrituras, falava com toda a gente e fazia sentar na sua mesa o pobre e o pecador. De onde nos vem, então, a ânsia de sermos importantes, reconhecidos, elogiados, admirados?

Neste último fim-de-semana, foi pedida colaboração dos noviços num santuário a 20 km daqui. É o santuário de S. Judas, em Faversham.

The Shrine of Saint Jude - Faversham

Segundo a tradição, Judas Tadeu é o santo das causas perdidas ou impossíveis. A este santuário chegam, todos os dias, os pedidos mais desesperados e também palavras de agradecimento.

Durante este fim-de-semana centenas de pessoas de muitas origens vão a Faversham. Muitos anónimos, com orações anónimas, com vidas anónimas. Tive oportunidade de atribuir o nome a algumas pessoas que nos iam contando o que se passava na sua vida. Percebo, agora, que o facto de serem anónimas pesa sobre nós e não sobre as pessoas. Se não queremos que as pessoas sejam anónimas temos de conhecê-las, conhecer o seu nome, a sua história. E talvez encontraremos santos que antes dizíamos não terem nome!

Desejo-vos uma óptima semana 😉